O ano de 1922 marcava o centenário da Independência do Brasil. Para as comemorações, uma mostra de arte grandiosa, a Exposição do Centenário da Independência, reuniria, de setembro daquele ano até abril de 1923 – em 2.500 metros quadrados de pavilhões – cerca de 10 mil expositores e milhares de visitantes por dia.

Ao longo do ano, o mundo seria sacudido por muitos acontecimentos: a União Soviética seria oficialmente criada; Elliot Ness prenderia o gangster Al Capone, um antigo papa morreria e um novo seria eleito; Gandhi seria preso, o sarcófago de Tutancâmon descoberto; começava a era do jazz.

Se você se interessar por saber mais sobre o que acontecia no mundo em 1922, o autor, Nick Rennison, no livro 1922: cenas de um ano turbulento, relata acontecimentos importantes  que impactaram o século XX e reverberam até os dias atuais”.

 1922: CENAS DE UM ANO TURBULENTO, Nick Rennison. Editora: Astral Cultural

Voltando ao Brasil, mais precisamente à cidade de São Paulo, jovens artistas, pintores e escritores da elite paulistana, entre eles Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, financiados pelo cafeicultor e mecenas das artes, Paulo Prado, criaram a Semana de Arte Moderna, que aconteceu nos dias  13, 15 e 17 de fevereiro, no Teatro Municipal de São Paulo.

Conta-se que artistas foram incentivados pelo pintor Di Cavalcanti: “esse negócio de exposiçãozinha individual é coisa do passado! O que é preciso é fazer uma grande exposição de arte moderna…uma coisa que sacuda a indiferença do público!”, teria dito ele a um amigo.

O que chegou a ser pensado para ficar em cartaz por um mês não durou nem uma semana, mas foram três dias tão polêmicos e ruidosos, que a Semana de Arte Moderna marcaria para sempre a cultura brasileira.

Criado por Di Cavalcanti, capa do programa da Semana de Arte Moderna

A cada dia, era trazido um tema diferente, mas, a cada dia, o público menos compreendia e mais criticava o que era apresentado. As respostas vinham por meio de vaias, ausências e até tomatadas. 

A Semana de Arte Moderna de 22 não teve muita repercussão, muito menos grande importância. À época. Com o passar dos anos, porém, o Modernismo se tornou a maior referência de arte brasileira.

Em maio de 1922, os idealizadores da Semana de 22, e outros colaboradores, lançaram a revista Klaxon – Mensário de Arte Moderna, sendo o nome klaxon derivado de uma marca de buzina de automóveis, especialmente utilizada em carros de polícia e outros veículos de emergência como forma de alerta.

O principal propósito da revista era divulgar o movimento modernista, marcando a sua busca por uma identidade nacional, e a difusão da concepção de que a arte não deve ser uma cópia da realidade, que à época seguia as tendências europeias em todos os campos: música, artes plásticas e literatura. 

O Movimento Antropofágico, por exemplo, considerado um dos marcos do Modernismo e liderado pelo casal Oswald de Andrade, escritor, e Tarsila do Amaral, pintora, teve início com a publicação do primeiro manifesto antropófago, publicado pelo escritor na Revista de Antropofagia, do estado de São Paulo, em 1928.

   

Manifesto Antropógago, publicado, em maio de 1928, na Revista de Antropofagia

A inspiração para Oswald escrever o manifesto vem do quadro O Abaporu – junção das palavras Aba (homem) e Poru (que come carne humana) – que recebe de presente de sua esposa e autora da obra, Tarsila. Abaporu: a história do quadro mais valioso da arte brasileira. BBC News Brasil

O uso do termo faz alusão às antigas civilizações que comiam a carne dos inimigos em rituais, por acreditarem poder somar, às suas próprias, as características do outro.

De acordo com Oswald de Andrade, o manifesto propunha a “devoração cultural das técnicas importadas para elaborá-las com autonomia e convertê-las em produto de exportação”.

Aqui, aproveito a deixa para fazer uma provocação aos nossos leitores: será possível a nós educadores, ao nos aproximarmos de abordagens pedagógicas e práticas de sala de aula de escolas estrangeiras, em vez de copiá-las, ou querer reproduzi-las, nos apossarmos delas, com a voracidade de um canibal e reinventá-las?

A obra O Abaporu, o quadro mais valioso da arte brasileira, pertence, desde 1995, ao acervo do  Museu de Arte Latino-americana; de Buenos Aires (MALBA), mas há muitas outras obras do movimento modernista espalhadas em museus do país, principalmente na cidade de São Paulo, como a Pinacoteca e  o MASP, por exemplo. 

 A Estudante, de Anita Malfatti. Parte do acervo do MASP

Operários, de Tarsila do Amaral, pintado em 1933. Parte do Acervo Artístico-cultural dos Palácios do Governo de SP

Foto tirada pela Piti, em visita à Pinacoteca. 19/02/22

Quem visitar a Pinacoteca de São Paulo até 31 de dezembro deste ano (2022) poderá reconhecer, entre as mais de 1000 obras expostas, 134 de autoria de artistas ligados ao modernismo. Dentre as obras expostas, há uma que estava presente na exposição histórica da Semana de 1922, a pintura Amigos, de Di Cavalcanti.

Está lá também a obra Antropofagia, de Tarsila do Amaral.

Pinacoteca celebra centenário da Semana de 1922 e destaca em exposição obras de artistas modernistas

Na Casa Diálogos preservamos também nosso pequeno acervo do modernismo e temos aqui à disposição, para leitura e pesquisa, para quem vier nos visitar, uma coletânea das revistas Klaxon – Mensário de Arte Moderna e da Revista de Antropofagia (fac-símile).

Fica o convite para saber mais sobre a Semana que deixou rastros na Arte Brasileira.